Artigos
acadêmicos
2026
Abordagens globais para a recuperação da pandemia: perspectivas nos campos da conservação, desenvolvimento e saúde
Autoria: Carmenta, R., Anderson, L.O., Armijos, T., Few,R., Lugo, V., Marsh, H. y Ulfe Young, M.E.
Journal of Environment and Development.
Resumo
Em muitos contextos, a recuperação da COVID-19 está em curso. Os impactos da pandemia foram diversos e distribuídos de forma desigual, o que pode explicar, em parte, a variedade de abordagens que têm sido adotadas no contexto da recuperação. Inúmeras perspectivas foram expressas em diversas áreas de estudo a respeito do que constitui "recuperação", o que sua busca deve envolver, quem (ou o quê) ela deve priorizar e qual visão de recuperação ela deve representar. Até o momento, não há uma avaliação disponível sobre como diferentes áreas (por exemplo, saúde, conservação e desenvolvimento) têm representado as prioridades de recuperação após a pandemia de COVID-19. Essa lacuna de conhecimento é importante, pois a compreensão dos pontos em comum e das diferenças entre as áreas pode contribuir para uma avaliação mais integrada das múltiplas prioridades relevantes para a recuperação. A integração, contudo, também envolve a representação de diversos conhecimentos, valores e experiências vividas, e o apoio a comunidades resilientes a desastres exige atenção às vozes dos mais marginalizados. O reconhecimento e a participação adequados desses grupos são essenciais para aprimorar a justiça e a equidade das intervenções focadas na recuperação e podem ajudar a garantir que as intervenções não pressuponham, interpretem erroneamente ou representem de forma distorcida as prioridades locais. Com o crescente reconhecimento da necessidade de respostas decoloniais, fundamentadas e codesenvolvidas para os processos de recuperação, o futuro da natureza e o desenvolvimento global, torna-se necessário compreender como a recuperação da COVID-19 foi concebida e articulada em diferentes áreas e, crucialmente, em que medida incluiu as percepções de grupos social, econômica e politicamente marginalizados. Analisamos 30 artigos (10 por área) e questionamos: (1) Como a recuperação da COVID-19 tende a ser enquadrada nessas áreas, incluindo a representação de riscos interseccionais? (2) Onde existem divergências e congruências nos discursos sobre recuperação nessas áreas, e como seria uma compreensão integrada da recuperação? (3) Em que medida as vozes locais são refletidas ou reconhecidas nesses marcos internacionais? Constatamos que, embora as perspectivas divergissem, todas destacaram como a COVID-19 expôs crises preexistentes e interconectadas. Muitos apontaram a causa principal como sendo modelos de crescimento econômico falhos, que necessitavam de diferentes graus de transformação, juntamente com uma governança mais integrada. Crucialmente, poucas abordagens representaram de forma significativa as vozes locais ou marginalizadas, e relativamente poucos artigos fundamentaram ativamente seus apelos ou defenderam de forma proeminente tais práticas. Nossos resultados apontam para a necessidade de uma geração de conhecimento mais cocriada e de uma definição de agenda mais eficaz para a recuperação da COVID-19 e para a recuperação de desastres em geral.
2025
Os significados de 'recuperação': perspectivas populares da Colômbia e do Peru após a pandemia
Autoria: Few, R., Cristancho Garrido, H., Ulfe, M. E., Trelles, A., Tebboth, M. G. L.
New Area Studies
Resumo
Este artigo apresenta uma reflexão crítica sobre o significado da recuperação após uma crise. Baseia-se em insights de um programa de pesquisa com comunidades indígenas e camponesas na Colômbia e no Peru, conduzido no período posterior à pandemia de COVID-19. Por meio de uma abordagem qualitativa flexível, as equipes participaram de amplas discussões sobre as preocupações e aspirações das pessoas. Essas trocas revelaram como as histórias das pessoas durante a pandemia estavam intrinsecamente interligadas a outros riscos cotidianos e contínuos relacionados a conflitos, marginalização, pobreza, deslocamento e degradação ambiental. Também ressaltaram o quão equivocado pode ser encarar a experiência da pandemia como uma espécie de ruptura com a "normalidade", externalizando a noção de crise de uma forma que não reconhece as raízes históricas e estruturais do risco e da vulnerabilidade. Por outro lado, também observamos como as capacidades de lidar com a crise já estavam presentes nas comunidades, em parte como consequência de injustiças históricas, refletidas, por exemplo, no ressurgimento do cuidado comunitário e das práticas indígenas. Essas perspectivas transmitiram uma concepção de recuperação não como uma trajetória linear ou individualizada, mas como um processo coletivo multifacetado que busca confrontar a dinâmica dos riscos e injustiças contínuos.
FLAME 1.0: Uma nova forma de modelar a área queimada em biomas brasileiros utilizando o conceito de máxima entropia
Autoria: Barbosa, M. L. F., Kelley, D. I., Burton, C. A., Ferreira, I. J. M., da Veiga, R. M., Bradley, A., Molin, P. G., and Anderson, L. O.
Geoscientific Model Development
Resumo
Com o aumento da duração e da intensidade das temporadas de incêndio no Brasil, aprimorar as simulações de incêndios e compreender suas causas torna-se crucial. No entanto, determinar o que impulsiona a queima em diferentes biomas brasileiros representa um desafio significativo, dada a alta incerteza em torno da relação entre os fatores que impulsionam o fogo e o próprio fogo. Encontrar maneiras de reconhecer e quantificar essa incerteza é fundamental para entender as causas das mudanças nos regimes de incêndio no Brasil. Propomos o FLAME (Análise da Paisagem de Incêndios por Máxima Entropia), um novo modelo de incêndio que integra inferência Bayesiana com o conceito de máxima entropia, permitindo raciocínio probabilístico e quantificação da incerteza. O FLAME utiliza variáveis bioclimáticas, de cobertura do solo e de intervenção humana para modelar incêndios. Aplicamos o FLAME a biomas brasileiros, avaliando seu desempenho com dados observados para três categorias de incêndio: todos os incêndios (ALL), incêndios que atingem vegetação natural (NAT) e incêndios em vegetação não natural (NON). Avaliamos a resposta das áreas queimadas a diferentes grupos de variáveis explicativas. O modelo apresentou desempenho adequado para todos os biomas e categorias de incêndio. A temperatura máxima e a precipitação, juntas, são fatores importantes que influenciam a área queimada em todos os biomas. O número de estradas e bordas de floresta (densidade de bordas), os tipos de floresta e pastagem e o carbono na vegetação morta apresentaram maiores incertezas nas respostas. Em geral, as incertezas foram maiores para a categoria Noroeste, particularmente para as regiões do Pampa e do Pantanal. A personalização da seleção de variáveis explicativas e categorias de incêndio de acordo com as características do bioma pode contribuir para uma análise mais específica e contextualizada. Além disso, priorizar a análise em escala regional é essencial para a tomada de decisões e estratégias de manejo de incêndios. O FLAME é facilmente adaptável e pode ser usado em diversos locais e períodos, constituindo uma ferramenta valiosa para medidas de prevenção de incêndios mais informadas e eficazes.
2023
Índice de exposição ao fogo como ferramenta para orientar a prevenção e o gerenciamento
Autoria: De Freitas A., Ferreira J., Escada M., Reis J., Leite C., Andrade D., Spínola J., Soares M., Anderson L.
Frontiers in Physics
Resumo
As Áreas Protegidas (APs) no Brasil possuem instrumentos legais para a conservação e proteção da fauna e flora. A categoria de Reservas de Uso Sustentável (RUS) conta com mecanismos para garantir a segurança dos modos de vida tradicionais. Apesar da existência de mecanismos e informações que contribuem para a proteção das áreas florestais, as ameaças à sua conservação, como desmatamento, incêndios e eventos climáticos extremos, estão aumentando. Os incêndios representam uma ameaça significativa a muitos objetivos de desenvolvimento sustentável, como ação climática, saúde e segurança alimentar, especialmente para as populações que dependem dos recursos florestais. Este estudo abrange duas RUS, a Floresta Nacional do Tapajós (FLONA Tapajós) e a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (RESEX Tapajós-Arapiuns), localizadas no estado do Pará, na Amazônia brasileira, onde o desmatamento, os incêndios e os conflitos fundiários se intensificaram na última década. Esta pesquisa teve como objetivo analisar dados ambientais e de gestão territorial para construir um Índice de Exposição ao Fogo (IEF), identificar a pressão exercida sobre as áreas rurais (AR) e criar uma ferramenta para orientar o planejamento estratégico, visto que a exposição é um componente da vulnerabilidade e, portanto, também do risco.
Degradação florestal no sudoeste da Amazônia brasileira: impacto sobre espécies arbóreas de interesse econômico e uso tradicional
Autoria: Costa, J. G., Fearnside, P. M., Oliveira, I., Anderson, L. O., de Aragão, L. E. O. e. C., Almeida, M. R. N., Clemente, F. S., Nascimento, E. d. S., Souza, G. d. C., Karlokoski, A., de Melo, A. W. F., de Araújo, E. A., Souza, R. O., Graça, P. M. L. d. A., & da Silva, S. S.
Fire
Resumo
A biodiversidade amazônica tem sido utilizada há gerações por populações humanas, especialmente povos indígenas e comunidades tradicionais, em suas práticas culturais, sociais e econômicas. No entanto, a degradação florestal, impulsionada por incêndios, tem ameaçado a conservação desses recursos. Este estudo examinou os efeitos de incêndios florestais recentes sobre espécies com potencial madeireiro, não madeireiro e de uso múltiplo no estado do Acre, Brasil. Foram analisados inventários florestais de cinco tipos de floresta, identificando-se espécies com potencial madeireiro, não madeireiro e de uso múltiplo com base em uma revisão de artigos científicos, livros e estudos na literatura técnica. Os indicadores do efeito dos incêndios florestais sobre a densidade de espécies foram baseados na média e no desvio padrão da densidade de árvores e na abundância absoluta. Constatou-se que 25% das árvores têm potencial para uso humano, 12,6% para madeira, 10,7% para usos não madeireiros e 1,4% têm potencial de uso múltiplo. Devido ao impacto negativo do fogo, a redução do potencial madeireiro, não madeireiro e multiuso pode variar de 2% a 100%, dependendo do tipo de vegetação e, sobretudo, da frequência dos incêndios. Contudo, mesmo em florestas degradadas pelo fogo, espécies úteis aos seres humanos podem ser mantidas em certa medida e contribuir para outros serviços ambientais; portanto, devem ser preservadas.
Onde há fumaça, há fogo!
Autoria: Oighenstein Anderson, L., Silva S., Melo A.
CSP Cadernos de Saude Publica. Reports in Public Health
Os dados de desmatamento da Amazônia são utilizados como um termômetro, nos âmbitos nacional e internacional, para sinalizar como está a gestão política de controle e combate desse processo, geralmente divulgados na mídia. Devido ao enfraquecimento das políticas ambientais nos últimos anos, havia a previsão de que o desmatamento para o ano de 2020 seria o maior da década, acima do de 2019, que superou 10.800km2, a maior taxa desde 2008. Ainda que em 2020 a taxa tenha sido um pouco inferior ao valor de 2019, os anos de 2021 e 2022 ultrapassaram os 12.000km2, novamente ganhando destaque na mídia mundial. Recentemente, devido à crise Yanomami, foi revelada outra ameaça crescente à vida amazônica: o avanço das atividades de mineração e garimpo na região. Estima-se um aumento nas taxas de mineração principalmente após 2010, e no ano de 2020 foi detectado que a área total de garimpo superou a de mineração industrial. Entre os impactos negativos, identificam-se, além de rupturas sociais e culturais aos povos originários, aumento de doenças, contaminação ambiental e insegurança alimentar.