Coprodução e apoio

Durante o trabalho de campo do projeto Vozes da Recuperação, foram desenvolvidas diversas iniciativas comunitárias em colaboração com organizações e coletivos que representam mulheres, vítimas do conflito armado e jovens em Marquetalia (Caldas), La Montañita e Florência (Caquetá).

A implementação de metodologias narrativas e artísticas foi crucial para fomentar a participação ativa, expressar experiências subjetivas e amplificar as vozes dos participantes em espaços públicos locais e regionais. Além disso, proporcionou espaços para a criação coletiva de conteúdo audiovisual e de divulgação, que foi compartilhado tanto de forma impressa quanto em meios digitais.

Iniciativas comunitárias de mulheres

No município de Marquetalia (Caldas) desenvolveu-se um processo comunitário junto à Associação Municipal de Mulheres Camponesas, Negras e Indígenas (ANMUCIC-MAR) e à Plataforma de Mulheres de Marquetalia. Esta iniciativa propiciou espaços de reflexão coletiva sobre os impactos da COVID-19 e as estratégias de recuperação integral promovidas pelas mulheres rurais.

Os participantes identificaram o período da pandemia como um período de estagnação e sobrecarga emocional e física. Eles apontaram o aumento da violência de gênero, a intensificação das tarefas de cuidado, a incerteza sobre o futuro e o enfraquecimento do tecido organizacional comunitário devido ao isolamento. 

Em resposta a essas experiências, surgiu a proposta de coconstruir uma estratégia de ação comunitária a partir da troca de conhecimentos e ofícios entre as próprias mulheres.

Reconhecendo seus conhecimentos em artesanato, bordado, tricô, costura e confecção, o grupo decidiu elaborar um tecido coletivo ou colcha de retalhos como símbolo de memória, cuidado e reconstrução coletiva. Essa criação não apenas permitiu ressignificar suas experiências durante a pandemia, mas também fortalecer o trabalho colaborativo e o senso de comunidade entre mulheres de diferentes lugares do município.

Tecendo a vida depois da pandemia

Curta-documentário
"Mulheres Tecedoras de Sonhos"

O curta-documentário "Mulheres Tecedoras de Sonhos" mostra o processo realizado pelo grupo de mulheres, composto por integrantes da ANMUCICMAR e da Rede de Mulheres de Marquetalia, por meio do tricô de um cobertor de retalhos. Durante esse processo, foram feitas diversas reflexões sobre os impactos da Covid-19 e as maneiras pelas quais as mulheres puderam acelerar sua recuperação integral.

A horta medicinal comunitária da recuperação

Esta iniciativa comunitária teve como objetivo fortalecer o processo organizativo das mulheres da Associação Nacional para o Desenvolvimento e Empreendedorismo de Mulheres Rurais (ASODENMUR), localizada na comunidade La Estrella, em Florencia, Caquetá. 

Através da criação coletiva de uma horta medicinal comunitária, promoveu-se a recuperação de saberes tradicionais e o cuidado do meio ambiente, ao mesmo tempo em que se fortaleceram os laços de colaboração, a participação ativa e a coesão entre as integrantes da associação. Esse espaço se consolidou como uma estratégia de recuperação afetiva, ecológica e organizativa para as mulheres rurais do território.

O curta-documentário

“A horta comunitária da recuperação”
 

Este curta-documentário explora o processo organizacional da ASONDEMUR (Associação Nacional para o Desenvolvimento e Empreendedorismo das Mulheres Rurais), uma experiência coletiva que surge como resposta às múltiplas violências históricas que atravessaram o território. A ASONDEMUR está configurada como uma rede de relacionamentos afetivos, carinhosos e entre irmãs, o que permitiu que mulheres rurais fortalecessem sua liderança, construíssem autonomia e reconstruíssem o tecido social sob uma perspectiva feminista e territorial. 

A obra reúne os espaços de encontro gerados ao longo do processo de criação coletiva do curta-documentário, nos quais as participantes compartilharam memórias, narrativas de vida e experiências de luta e cura. Por meio de metodologias participativas — como o relato oral, o desenho e a escrita — são visibilizadas tanto as dimensões políticas da organização quanto as subjetividades que a sustentam.

Iniciativas comunitárias de vítimas do conflito armado 

Reinventando nossas vidas

Esta iniciativa teve como objetivo reconstruir a história de sobrevivência da comunidade vítima do conflito armado no município de Marquetália (Caldas), por meio da criação de estratégias audiovisuais voltadas a visibilizar e fortalecer os processos organizativos no território.

Como resultado do trabalho colaborativo, foi elaborada uma infografia que reúne as trajetórias de luta, resistência e organização das associações de vítimas do município. Este material impresso foi apresentado em três exposições comunitárias: a primeira durante uma sessão da Junta Municipal de Participação de Vítimas; a segunda no ato comemorativo do Dia Nacional da Memória e da Solidariedade com as Vítimas, realizado em 14 de abril de 2024 em Marquetalia; e a terceira no Encontro ENTREVOCES, realizado na cidade de Manizales.

Esta experiência reafirmou o valor da memória coletiva como ferramenta de cura, reconhecimento e ação transformadora.

Memórias de sobrevivência e recuperação

Esta iniciativa foi desenvolvida em colaboração com a Associação Fusão Tropical da Amazônia, em Florência, Caquetá, com o objetivo de recuperar a memória coletiva da organização como parte fundamental de seus processos de cura e fortalecimento comunitário.

Através de linguagens escritas e audiovisuais, foram promovidos exercícios de reconstrução narrativa que ressignificam as experiências de despojo, resistência e esperança vividas por seus integrantes. Como resultado desse processo, foi criado o curta-metragem “A Paz da Floresta”, uma obra que reúne as vozes, os saberes e as lutas de quem apostou na recuperação pessoal, familiar e territorial a partir de uma perspectiva de justiça ambiental e dignidade.

Curta-documentário
"A Paz da Floresta"

O curta-documentário “A paz da floresta” é resultado de um processo de pesquisa e criação coletiva desenvolvido em colaboração com a organização “Fusão Tropical da Amazônia”. Através dos relatos de vida de Don Saúl Rivera e Dona Amparo Velasco, a obra narra as marcas que o conflito armado deixou em suas trajetórias pessoais e comunitárias, ao mesmo tempo que evidencia as formas de resistência, reconstrução e dignificação promovidas a partir do local.

Longe de apresentar as vítimas a partir de uma lógica assistencialista, o documentário evidencia as capacidades organizacionais, os vínculos afetivos e a agência política que permitiram a homens e mulheres do território amazônico sustentar a vida em contextos de adversidade.

Feira comemorativa em 9 de abril:

Dia Nacional da Memória e da Solidariedade

No dia 9 de abril de 2024, no bairro La Gloria, em Florência (Caquetá), foi realizada uma feira comemorativa em parceria com a Fundação de Mulheres Camponesas Sem Terra Vítimas do Conflito Armado (FUMUCASTIVIC).

A iniciativa teve como propósito tornar visíveis os processos de reconstrução da memória desenvolvidos por mulheres, vítimas e jovens do território, entendidos como ferramentas fundamentais para a recuperação individual, familiar e comunitária.

O evento contou com a participação de aproximadamente 250 pessoas, incluindo representantes de instituições públicas, organizações de vítimas e atores da sociedade civil. Durante a jornada, foram exibidos os produtos elaborados coletivamente no âmbito do projeto em Florência e La Montañita, e foi inaugurado um mural comemorativo no bairro La Gloria, como expressão simbólica de dignidade, resistência e memória viva.

Curta-documentário
"Uma dança pela paz"

Este curta documentário narra a história da FUMUCASTIVIC, uma fundação formada em janeiro de 2022 por mulheres camponesas sem terra e vítimas do conflito armado, residentes na urbanização La Gloria de Florencia, Caquetá.

Através da organização social e comunitária, essas mulheres começaram a transformar seu território e a reconstruir suas vidas. “Uma dança pela paz” retrata o processo pelo qual elas ressignificaram seu bairro como um espaço de resistência e dignidade, recuperaram sua voz coletiva e levantaram suas demandas por uma vida livre de violência, com justiça social e oportunidades para elas e suas famílias.

Iniciativas comunitárias de jovens 

Historiadores da pandemia

Esta iniciativa foi desenvolvida com jovens da Instituição Educativa Juan XXIII, no município de Marquetalia (Caldas), com o propósito de gerar espaços para que pudessem narrar e refletir sobre suas experiências durante e após a pandemia de COVID-19.

Através de atividades criativas e participativas, os estudantes compartilharam suas experiências como jovens rurais, construindo memórias coletivas sobre um período marcado pelo confinamento, pela transformação da vida escolar e familiar, e pelos desafios emocionais que enfrentaram.

No âmbito desta iniciativa, foi elaborado um curta experimental chamado “Momotus”, uma narrativa audiovisual chamada “O diário de Tony & Luna”, um mural e várias exposições comunitárias.

Curta-experimental 'Momotus'

Este curta-metragem experimental reúne e dá visibilidade às narrativas de um grupo de jovens sobre sua experiência durante a pandemia de COVID-19 e os caminhos de recuperação que construíram desde então.

Assim como o pássaro Momotus, símbolo do território, os jovens atravessaram aqueles tempos em tons de cinza: isolamento, incerteza e perda marcaram seus dias. No entanto, o vídeo destaca como encontraram na música, no desenho, na pintura e na escrita formas de resistência emocional e criatividade, fazendo dessas expressões artísticas refúgios que trouxeram cor às suas vidas em meio à crise.

Documentário curto
"O Diário de Tony & Luna"

O vídeo foi criado com um grupo de estudantes do Colégio Juan XXIII no município de Marquetália-Caldas. Retrata a transformação da vida cotidiana em casa, as dificuldades para socializar com seus colegas, e os talentos e hobbies que os jovens descobriram para tornar seus dias mais suportáveis durante o confinamento.